sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Pai: Herói e bandido


Pai, herói e bandido

                Nesse mês dos pais, como ficarmos sem refletir sobre essa figura tão complexa e esse papel tão importante que é ser pai. Convenções à parte, porque todo dia é dia de ser pai, esse mês nos traz mais de perto essa relação que é de pai e filho. Difícil fugir! Na televisão, na escola, nas redes sociais, somos invadidos por essa enxurrada comercial do dia dos pais.  O apelo muitas vezes sentimental faz disfarçar a realidade que nem sempre é feliz. Para quem o pai morreu, a saudade, para quem não tem pai presente, porque não sabe de sua existência ou porque está distante, a tristeza. Para quem o pai comparece, a alegria!

Existem vários tipos de pais e situações: Pai omisso, pai ausente, pai distante, pai autoritário, pai super protetor, pai provedor, pãe ( que é pai e mãe), pai aventureiro, pai educador, pai amigo, futuro pai ansioso  e até pai que ignora ser pai. Porque mãe não dá pra não existir, não saber que se é, mas pai pode nunca ter sabido que se foi. Pai fica rendido nesse momento, porque a mulher pode nunca contar.  Pai pode abandonar mesmo sabendo, virar as costas e ir embora. Não que mãe não abandone, mas mais difícil deixar aquele ser que saiu de suas entranhas, quase como um prolongamento de seu corpo e de seu ser. O que fazer com aquele ser frágil que acaba de nascer e que o médico ou parteira coloca em seus braços? Pai pode nem querer ver e estar bem longe nessa hora para não entrar em contato com qualquer sentimento que possa surgir. Existem mães que jogam fora, como se fosse lixo, infelizmente sabemos dessas histórias humanas.  Não sabemos o grau de doença mental, de perturbação ou de miséria física ou espiritual. Essas histórias tristes existem. Mães que dão para outras mães porque não podem cuidar, mas pais que fogem da responsabilidade não se preocupam em dar para outro pai.

Se o pai abandona, a mãe vai ser pai e mãe. Ou outra figura vai chegar e exercer o papel de pai, seja tio, avô ou padrasto. Nem sempre quem exerce o papel é aquele que tem a função biológica. É porque papel, vestimos ou não, como quando somos professores de alguém ao ensinar  algo, mesmo não sendo professor. Mesmo não sendo o pai biológico, e não tendo a obrigação, tem homem que assume a paternidade, mesmo não vendo suas características físicas ou modo de ser no filho, adota como seu, recebe-o em seu coração e assume a responsabilidade. Assim como existem pessoas que abandonam, existem pessoas que abrigam, acolhem. Escolhem cuidar, educar, se doar, amar.

O pai que abandona, rejeita ou vive frustrando o filho com promessas não cumpridas, geralmente são pais separados das mães, que não conseguiram entrar no papel de pai, porque não cresceram, porque eles mesmos ainda estão na condição infantil de filho. Ritos de passagem tão comuns nas sociedades tribais carecem na nossa e encontramos homens imaturos até 40, 50 anos. Para crescer é necessário tomar seu pai e sua mãe, saciar-se desse amor, aceitar os pais como são, receber do jeito como foi possível e se não foi possível, porque morreu ou não conheceu, agradecer pela vida.

Quem vive julgando os pais, criticando, reclamando, não está tomando os pais e está se prejudicando. Está como juiz ou outra autoridade superior aos pais e por isso não sabe receber como filho. Só quem é pequeno recebe do grande, como só quem é humilde pode aprender. Na arrogância não se aprende, não se recebe, pois o pote está cheio e não cabe mais nada. No mínimo uma pessoa recebeu um óvulo e um espermatozoide, o que significa a vida. Há quem diga que dar a vida não é suficiente. Daí cabe a reflexão: A vida é pouco? Em famílias de crianças adotadas percebemos que o melhor que poderia ter ocorrido, foi a criança não ter ficado com seus pais biológicos, muitas vezes o lar era violento, com doença mental ou condições muito difíceis. Neste caso a criança pode homenagear ambos os pais: o que deu a vida e o que criou. O sentimento de pertencer faz a vida fluir.

Exigir que um pai que não quer ser pai, venha ver seu filho, pode ser mais difícil para a criança do que crescer sem essa figura paterna. Crianças sempre se adaptam melhor do que adultos, tem mais facilidade para externar emoções e criar soluções porque não estão ainda contaminadas por julgamentos. Adultos julgam muito e tendem a querem controlar a vida do jeito que pensam que é o certo. O controle pode ceder lugar à confiança na vida, quando aprendemos a aceitar que nem sempre temos o que gostaríamos, mas o que é possível e talvez o que precisamos para amadurecer, nos desenvolver como seres humanos em evolução.

Existe também a situação de pais casados em conflito em que o pai fica ausente de casa não só fisicamente, mas quando está em casa a cabeça em outro lugar, perdendo a conexão não só com a esposa, mas com o filho. Nesses casos quando os pais se separam, o filho acaba ganhando um pai que nunca teve quando moravam juntos. Casais têm conflitos, mas dependendo de como lidam com ele, podem amadurecer como pessoas e como casal e voltar a momentos de serenidade até o próximo conflito, ou estagnar e não ter mais nenhuma renovação, causando afastamento, fazendo a relação se congelar e morrer.

Hoje também vemos que num casal estável as funções de pai e mãe se alternam entre os homens e as mulheres. Ambos saem para estudar e trabalhar e precisam se organizar como uma equipe cooperativa, quando um sai o outro fica de pai e mãe. Bom mesmo é quando estão todos juntos desfrutando da simples presença e das relações. Momentos esses que se tornam únicos na vida de uma criança, principalmente se verdadeiros, vai incentivá-la a ter bons relacionamentos no futuro. Dificuldades todos têm, negá-las faz com que não se possa resolvê-las. O amor que vem lá de dentro e que transcende qualquer papel ainda é a cura para muitas, senão todas as feridas.

OS: Dedico esse artigo a meu Pai, Paulo Martins pela vida, por tudo que você me deu, e por ser um modelo de pessoa digna, verdadeira, consciente, presente e humana. E ao pai do meu filho Fabiano por ter me dado a oportunidade de ser mãe e aprender tanto! A todos os pais de todos os tipos, minha homenagem!

 Sílvia Rocha – Psicóloga transpessoal formada pela UERJ, especialista em psicologia junguiana (IBMR), Arteterapeuta. Crp: 05/21756, Terapeuta familiar sistêmica


 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário