sexta-feira, 21 de março de 2014

Vínculos Familiares

Vínculos Familiares
Diário de Teresópolis, 20 de março de 2014

“É livre quem pode transformar-se” – Bert Hellinger

                Porque será que por mais que uma pessoa se esforce, alguma área de sua vida não flui? E por mais que se tente avançar, parece que está se remando contra uma maré bem forte, fazendo o barco ficar inerte? Você já se questionou que talvez essa trava não seja somente sua? É o que podemos chamar de emaranhamento familiar.

Parece que somos ligados uns aos outros por fios invisíveis, uma vida toca e influencia a outra. Às vezes os fios estão bem perto outras estão distantes, mas estamos todos conectados a uma rede. E nas famílias, existem verdadeiras teias, onde os fios podem estar unidos e livres, fazendo o amor fluir em seu dar e receber, trazendo um sentimento de vínculo, segurança, apoio e liberdade. Outras vezes os fios estão emaranhados trazendo culpas, controle, dor  e vários nós precisam ser desfeitos.

Não é porque existe amor que existe saúde. Por amor pode-se sofrer, adoecer e até morrer, é um amor cego. Porque a pessoa enredada faz de tudo para se sentir pertencendo e isso pode significar se unir a um destino difícil. Então como ser bem sucedido numa família onde houveram fracassos? Como se casar se houveram tios solteiros a vida toda? Esses comportamentos que repetem os dos ancestrais são inconscientes e podem ser liberados quando trazidos à consciência.

Segundo as terapias sistêmicas, vivências de outras pessoas são carregadas, principalmente se estas pessoas foram excluídas do sistema familiar: sua existência foi mantida em segredo ou não recebeu um lugar digno na família. Exemplos: irmão falecido prematuramente ou natimorto, abortos, alienação parental, doentes, criminosos, casos de abuso, injustiças. É preciso encontrar que vínculos, eventos ou comportamentos estão por detrás do problema. A solução geralmente consiste em poder olhar mais amplamente a situação.

A alienação parental geralmente ocorre por ocasião de divórcios, onde a imagem de um dos pais é denegrida causando na criança um sentimento de rejeição a esse pai ou mãe. Isso causa um desequilíbrio na criança que necessita da força de ambos os pais dentro de si para se desenvolver saudavelmente. Filhos adotivos precisam ter dentro de si um lugar amoroso para seus pais biológicos independente de qualquer julgamento a respeito deles.  As pessoas excluídas também poderão ser buscadas em futuros parceiros. Por exemplo, se um filho de um relacionamento anterior de um pai fora renegado por ele, a filha do atual casamento pode encontrar apenas relações fraternas com os homens. O que pode ser dissolvido se este irmão for buscado e reintegrado à família.

O silêncio e o segredo familiar mostram a dificuldade que se tem de confrontar a dor que é relembrar e reviver algo difícil. A dor só é liberada quando sentida e quando se consegue dar um lugar digno para o ocorrido, senão uma compensação pode ser feita por um membro da família que se coloca à serviço inconscientemente pois nem sequer soube de tal evento. Pessoas falecidas precisam ser homenageadas, por isso  rituais de despedida são importantes, assim como contar histórias familiares para os membros mais novos da família.

Transformar o amor cego num amor que vê claramente os acontecimentos e destinos familiares passados é liberar a pessoa para trilhar seu próprio destino. Diferenciar-se sem culpa é possível quando o passado pára de atuar no presente, ao reconhecer injustiças pelo simples e profundo fato de olhar para elas com respeito e homenagem. Curvar-se reverenciando os destinos é separar-se deles ainda que o vínculo amoroso continue agora de uma forma mais saudável. Só se pode amar quando o outro é realmente um outro e não uma mistura.  

Dado lugar merecido a todos os envolvidos num sistema familiar, a reconciliação acontece. O que fora esquecido, é acolhido e o mais jovens poderão desfrutar de novos desfechos em suas vidas, em homenagem ao que seus ancestrais não puderam viver. Torna-se então possível olhar de frente o futuro e enxergar um campo de muitas possibilidades.

Sílvia Rocha

2 comentários:

  1. Oi, Sílvia.
    Adorei o texto! Principalmente porque fiz constelação familiar. Quando nos conhecemos, tinha acabado de ter uma cesárea, e o fato de ter passado pela cirurgia, assim como minha mãe e como a minha avó, me fez refletir que aí poderia haver um nó. Fiz terapia por um tempo com um psicólogo que trabalhava com constelação e hipnose, e foi muito interessante porque um segredo da vida da minha avó, do nada, foi revelado para minha mãe, que não tinha nada a ver com a terapia. Descobrimos que minha avó se apaixonou e ia fugir com um cigano, a família descobriu e a trouxe à força aqui para o Rio. Ela se casou com meu avô em pouco tempo, provavelmente não estava apaixonada... Minha mãe entrou em sofrimento no trabalho de parto e assim ela passou pela cesárea. Eu nasci de cesárea e tive o Pietro dessa forma. Mas acho que a terapia desfez esse nó: minha filha nasceu em setembro em casa, num parto natural. Estou fazendo o relato do parto, foi o momento mais lindo da minha vida, e com certeza a terapia me ajudou muito a me empoderar para o parto. Beijos!

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  2. Que ótimo Clarissa Bottari, parabéns!

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